Saci Wèrè. Foto: Jacque Lisboa/Divulgação
Foi num momento de solidão e ternura que Chris Barea, um dos vocalistas da banda brasiliense Saci Wèrè, criou a melodia do que viria a ser “Manginha”, um feat com a pernambucana Flaira Ferro e o segundo single do disco que está para sair, “Pra Nina o Fim do Mundo”.
A história da canção adiciona uma camada de doçura e conta muito sobre os tempos corridos. Aos 18 anos, o artista se desdobrava em dois empregos e mesmo cansado, escolhia a música como espaço de desabafo. Gravava e cantarolava nos intervalos de seus serviços como garçom e monitor de História. Escreveu assim os primeiros versos de “Manguinha”.
“Eu me lembro de estar cansado e meio borocoxô. Pra levantar o astral coloquei pra tocar um álbum dos Novos Baianos que eu adoro (quem não?), o Acabou Chorare. Quando chegou na faixa homônima, desabei a chorar (contradizendo o título da canção). Chorei não sei por quê. Mas lembro de pensar em meus sobrinhos, com quem eu não vinha convivendo muito por falta de tempo. Lembrei de quando eles me visitaram, de manhã cedo, algumas semanas antes. Era época de manga. Peguei o violão. Eu só sabia tocar acordes simples. Escolha fácil, comecei com Dó maior. Fui cantarolando e veio logo essa melodia tão singela e bonita, já com um rascunho de letra que falava sobre o dia em que as crianças vieram me visitar e comemos manga. Só isso. Uma fotografia de um momento simples que, pra mim, muito significava. Toquei isso por um bom tempo, como um mantra, depois gravei no celular. Então ‘Manguinha’ é sobre tudo isso, mesmo com uma letra tão curtinha. Acho legal quando isso acontece. Fala da graça de uma manhã comum, coisa que a gente às vezes só percebe depois, quando a memória daquilo já está sob uma fina camada de poeira. Isso, acho, é a saudade; uma mistura de solidão e ternura”, explica Chris Barea.
A parceria com Flaira Ferro vem de uma identificação artística e afetiva. Primeiro veio a admiração pelo trabalho da pernambucana, que gerou a aproximação com a obra da artista. Depois veio a amizade e o pedido para a participação em uma canção. Ela escolheu “Manguinha”, que conversa bem com o universo musical da cantora e compositora, especialmente com o álbum AUÁ, uma parceria com a amiga e também artista Clara Coelho e uma delicada visão sobre o feminismo e o amor.
“Convidei-a inicialmente para cantar outra música, mas mostrei outras opções, e depois de mostrar ‘Manguinha’, ela disse ‘eu quero é cantar essa’. No final foi perfeito. A interpretação da Flaira é emocionante. Visceral, porém delicada, forte e suave, uma pérola mesmo. Ela deu cor e vida à canção. Sempre que ouço me emociono. Realmente admiramos muito essa mulher, foi uma honra tê-la com a gente nessa”, revela Chris.
“Manguinha” agora se une a “Tempo Bom” um feat com o também pernambucano Martins, que saiu em abril deste ano e já está em todas as plataformas de streaming e vem acompanhada de vídeo gravado no Lago Paranoá em Brasília e disponível no canal da banda, ambas se agregam às outras 6 canções que vão compor o álbum “Pra Ninar o Fim do Mundo”. Disco esse muito ligado à crítica social de forma bem humorada, mas também com momentos de brandura como as canções supracitadas.
“Do nosso novo disco ‘Manguinha’ talvez seja o coração, mesmo sendo a mais deslocada. Porque, de maneira geral, o álbum é uma crítica à modernidade. A gente ironiza os bilionários, o mito do progresso. Mas ‘Manguinha’ é só um respiro, uma esperança meio inocente. E acho que, justamente nesse respiro e nessa esperança é que reside o coração da coisa. Se não, não teríamos força pra seguir. Do Pra Ninar o Fim do Mundo, ela é a que mais nina”, comenta Chris.

Capa de “Manguinha”. Ilustrações de Bruna Daibert/Óleo em madeira
A canção tem produção musical, mixagem e masterização de Samuel Mota, arranjos dos irmãos Dila e Mansur JP. A capa é uma ilustração da artista Bruna Daibert. Saci Wèrè tem produção de Paula Rios, da Batedeira Cultural. A canção já está disponível em todas as plataformas de streaming. O projeto tem patrocínio do FAC – Fundo de Apoio à Cultura do DF.
Saci Wèrè é Abacate (violão e coro), Amanda Duarte (voz e percussões), Chris Barea (voz e percussões), Danilson Oliveira (baixo), Fernando Mazzoni (bateria e percussão), Gui Campos (guitarra e coro) e Hélio Devadatta (percussão e coro).

