Divulgação Dr Gustavo Omena
Envelhecer é uma experiência comum a homens e mulheres, mas a forma como a passagem do tempo é percebida e julgada socialmente ainda está longe de ser igual. Enquanto cabelos grisalhos, as marcas de expressão e a maturidade podem ser associados à experiência e à autoridade masculina, nas mulheres, os mesmos sinais frequentemente são encarados como um mal a ser disfarçado ou combatido.
Para o psiquiatra e psicogeriatra Dr. Gustavo Omena, essa diferença ajuda a explicar por que o envelhecimento feminino pode vir acompanhado de uma pressão que ultrapassa a aparência e alcança a saúde emocional.
“Homens e mulheres envelhecem biologicamente, mas socialmente não têm permissão para envelhecer da mesma maneira. No homem, o cabelo grisalho pode até virar charme, as rugas podem transmitir experiência e a maturidade pode significar autoridade, poder e competência. Na mulher, esses mesmos sinais frequentemente são tratados como alguma coisa que precisa ser combatida, corrigida ou escondida”, afirma o especialista.
Segundo o Dr. Omena, essa diferença tem raízes históricas: enquanto o valor social masculino esteve durante muito tempo relacionado a poder, patrimônio, posição e experiência, o feminino foi associado de forma mais intensa à juventude, à aparência, à fertilidade e à desejabilidade.
Essa combinação, segundo o psicogeriatra, pode colocar as mulheres diante de uma espécie de armadilha: há cobrança para que mantenham uma aparência jovem, mas também julgamento quando demonstram esforço para isso. “Se tem rugas, dizem que se largou. Se faz procedimentos, dizem que não aceita a idade. Se pinta o cabelo, quer parecer mais nova. Se assume os grisalhos, surgem comentários de que envelheceu muito. Não existe uma maneira certa de envelhecer quando o julgamento já estava decidido muito antes”, pontua Omena.
Para o médico, trata-se de uma combinação entre o chamado etarismo – discriminação relacionada à idade – e padrões sociais diferentes impostos a homens e mulheres. A consequência é que as transformações naturais do corpo podem adquirir um significado emocional muito maior. Quando a juventude é apresentada durante décadas como parte importante do valor feminino, envelhecer pode ser interpretado não somente como passagem do tempo, mas como perda de espaço, reconhecimento ou atratividade. “Deixa de ser somente uma experiência biológica e passa a ser também uma experiência psicológica e cultural”, explica o psiquiatra.

Saúde mental dos homens também sofre
Apesar da maior popularidade dos problemas de etarismo entre as mulheres, o Dr Omena esclarece que também há cobranças relacionadas à idade no sexo masculino. São as expectativas de desempenho, força, sexualidade e produtividade. Contudo, o psicogeriatra sinaliza haver um grande abismo entre os gêneros: “Para muitos homens, envelhecer pode acrescentar status. Para muitas mulheres, envelhecer ainda é tratado como se retirasse valor”.
Para o especialista, falar em envelhecimento saudável, portanto, exige ir além da longevidade e dos cuidados com o corpo. Também é necessário questionar os padrões que transformam características naturais da idade em sinais de fracasso.
Precisamos construir uma sociedade em que as mulheres também possam parecer que viveram. As rugas não são um fracasso. Cabelos brancos não são sinal de abandono. Um corpo que mudou não é um corpo que deu errado”, destaca. Para o médico, o problema nunca foi uma mulher aparentar a idade que tem. “O problema está em uma sociedade que ainda faz uma mulher acreditar que aparentar ter a própria idade é uma ofensa”, conclui.