Há discos que nascem como quem brota da terra depois da chuva: não pedem licença, simplesmente florescem. Vestido de Rainha surgiu assim: feito água do Cerrado correndo entre pedras antigas, feito tambor que ecoa memória e ancestralidade. Em sua estreia fonográfica, Lua Castanho transformou vivência em canto e canto em coroação. Recém-lançado, o álbum marcou a consolidação de uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas e reúne oito faixas que ecoam afeto, pertencimento e resistência, alinhavando forró pé-de-serra e MPB em uma sonoridade orgânica, pulsante e profundamente brasileira.
As composições, os arranjos e a produção musical foram assinadas por Conrado Pera, parceiro musical de longa data da artista. A construção sonora transita com liberdade entre o intimismo e a celebração coletiva, equilibrando delicadeza e potência, silêncio e pulsação, tradição e contemporaneidade, ancorada na vivência e inspiração que ambos, compositor e cantora, radicados na Chapada dos Veadeiros, absorvem cotidianamente entre amplas paisagens de cerrado nativo.
Mais do que um lançamento musical, Vestido de Rainha se apresenta como afirmação estética e política: “Esse disco nasceu do que foi vivido de verdade. Falou de vulnerabilidade, de força e de se reconhecer inteira. Vestido de Rainha foi um estado de espírito e um convite para ocupar o próprio lugar com coragem e afeto”, destaca Lua Castanho.
O álbum conta com participações especiais que ampliam sua paleta sonora, desde a participação especial da cantora Carla Casarim e a colaboração dos instrumentistas Ricardo Herz, Gabriel Selvage, Nonato Lima e Federico Puppi, cujas contribuições expandem a obra do intimismo à pulsação rítmica coletiva.
Disponível nas principais plataformas digitais, o álbum pode ser acessado em: http://tratore.ffm.to/
O percurso sonoro do álbum
A abertura acontece com “Kryptonita”, canção que quase ficou de fora do repertório, mas encontrou seu lugar definitivo no disco. Em formato voz, violão e violoncelo, inaugura a escuta em tom confessional, tratando o amor e a vulnerabilidade como potência. Na sequência, “Detona” muda a temperatura do álbum: traz rasgos sociais, evoca nomes como Marielle e Dandara e afirma a resistência como parte essencial da narrativa, com refrão direto e contundente.
O movimento e a transformação aparecem com força em “Giram Sóis”, que destaca a sanfona de Nonato Lima e amplia a dimensão rítmica do trabalho. Já em “Baobá”, as matrizes africanas, indígenas e populares ganham corpo e celebração, enquanto “Debaixo de Sete Mares” mergulha em atmosfera mais introspectiva e sensível.
“Adubo” apresenta um samba-canção profundo sobre amor, saudade e transcendência, preparando o terreno para “Forró das Majestades”, em que o forró assume protagonismo como homenagem às mulheres que marcaram o gênero. A participação especial de Carla Casarim reforça o caráter coletivo da faixa.
Encerrando o disco, “Vestido de Rainha” sintetiza a alma do projeto: um empoderamento que nasce do reconhecimento da própria história e do valor que se carrega: um fechamento afirmativo, pulsante e cheio de vida.
Sobre a artista
Embora Vestido de Rainha tenha marcado sua estreia fonográfica, Lua Castanho já possuía uma trajetória consolidada de mais de 20 anos. Ao longo da carreira, passou por importantes festivais e eventos culturais, como a Virada Cultural de São Paulo e o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, além de integrar projetos como Viajarte, Flores d’Água e Chapada Samba Clube, em Goiás.
Realizou colaborações com diversos músicos e coletivos, entre eles o Pé de Cerrado (DF), contribuindo ativamente para a cena musical cerratense e do Brasil. Em 2022, recebeu a Medalha ao Mérito dos Saberes e Fazeres da Cultura Cerratense, concedida pela Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano.
Este projeto foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, operacionalizado pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.

