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Senta que lá vem história: A Viagem astral

Uma viagem astral, um amor intenso e o início de uma jornada entre o visível e o invisível

Por ETC Comunicação
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Rodrigo Queiroz Tupiguara

O amor antes do sonho

Por Rodrigo Queiroz Tupiguara

O sol se despedia do dia, e a lua, com um sorriso cândido voltado à Terra, anunciava o prelúdio de uma noite especial. Paulo estava sentado com as mãos na cabeça, impaciente com a demora de Lili para se arrumar. Naquele dia, o casal, que completava um ano de namoro, decidiu sair para jantar. Eles queriam comer algo leve, e uma salada no restaurante mais badalado da cidade foi a escolha. Finalmente, Lili ficou pronta, e estava deslumbrante. O perfume francês que usava exalava no ar. “Que mulher cheirosa”, exclamou Paulo. Ele percebeu que a espera valera a pena; namorava a garota mais bela da cidade. Lili tinha uma genética privilegiada: era magra, com um corpo levemente malhado, loira com cabelo Chanel, altura mediana, lindos olhos azuis e um nariz delicado. Paulo fez um elogio meloso e se aproximou para dar um beijo apaixonado.

 

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Lili tentou se afastar, mas foi tarde demais, e Paulo borrou todo o batom vermelho que ela acabara de passar nos lábios carnudos. “Poxa, amor, agora você vai ter que esperar mais”, disse Lili, já se encaminhando novamente para o banheiro para retocar o batom vermelho escarlate.

Após comemorarem com um jantar delicioso e um vinho chileno de boa qualidade, voltaram para a casa de Lili e se entregaram ao amor. Paulo estava afogueado; já no elevador, pegou Lili por trás e deu vários beijos em sua nuca cheirosa, que ela retribuiu com sussurros e um leve arrepio. Entraram em casa e foram direto para o quarto de Lili, onde Paulo teve uma surpresa. Lili havia preparado uma decoração sensual: velas acesas, morangos com chantilly em quatro potes espalhados pelo quarto e um champanhe para os dois se entregarem ao prazer de forma avassaladora. A intensidade do momento lembrava o primeiro mês do relacionamento. Eles se consagraram ao deleite da luxúria e arroubamento por cerca de duas horas. Após a intensa troca de energia carnal, o belo casal, ambos extasiados, adormeceu.

 

O voo inesperado

Paulo, que dormiu de barriga para cima naquela noite, começou a perceber algo estranho em seu corpo. Ele começou a flutuar em direção ao teto do quarto, girando ao redor de si mesmo. Paulo não entendia o que estava acontecendo. “Será que tinha desencarnado? Mas como assim?”, indagou a si mesmo. Paulo estava na flor da idade, com apenas vinte e três anos, muito jovem ainda. “Como morrer assim do nada?” O desespero tomou conta de seu ser, e lágrimas copiosas começaram a cair. Paulo era espírita e sabia que um dia esse momento chegaria, só não imaginava que seria tão cedo. Resolveu então fazer uma oração, perguntou ao Pai Maior por que estava partindo assim repentinamente e rezou um Pai Nosso. Após completar a oração e dizer “que assim seja”, Paulo despertou de súbito, todo suado e com a cabeça confusa. Decidiu acordar Lili, que quase não conseguiu despertar. Quando sua amada sentou na cama e perguntou o que estava acontecendo, Paulo disse: “Lili, acabei de morrer e ressuscitar. Meu corpo estava flutuando aqui no seu quarto. Senti a pior sensação da minha vida, mas após um Pai Nosso, consegui acordar. Agora, não vou dormir nunca mais.” Lili ouviu tudo com muita atenção e pediu para Paulo se acalmar. Ela disse que isso não passava de um pesadelo e que ia fazer um chá para ele relaxar. “Que pesadelo o quê, Lili! Você não sabe o que passei. Nunca mais quero isso na minha vida”, disse Paulo.

 

O encontro com o Pai Amaro

Lili então se lembrou do Pai de Santo do terreiro que sua mãe frequentava e decidiu ligar para ele para pedir um esclarecimento. Paulo concordou com a ideia de Lili, mas ficou um pouco preocupado com o horário, afinal já eram duas horas da manhã. Mas Lili disse que não tinha problema; o Pai de Santo era notívago e dormia sempre muito tarde. Assim que Pai Amaro atendeu, Lili pediu desculpas pelo horário, mas explicou que era de suma importância ligar, pois o caso era muito sério, e que Paulo iria explicar melhor. Paulo então começou seu relato, explicando detalhadamente o que havia acontecido, assim como tinha feito com Lili. O Pai de Santo ouviu Paulo com atenção e, ao final, disse: “Fique tranquilo, meu nobre amigo. O que você teve foi uma experiência extracorpórea. Quando dormimos, nosso espírito sai do corpo e vaga pelo mundo espiritual. Os sonhos que temos são justamente as lembranças de nosso espírito fazendo essas viagens.

 

Algumas pessoas têm uma mediunidade voltada para essas experiências e conseguem ficar em estado de consciência no sonho. Essas experiências podem ser chamadas de projeção da consciência ou viagem astral. E o que aconteceu com você foi justamente isso. Relaxe, você ainda tem muita coisa para viver aqui na Terra”. Paulo retrucou a Pai Amaro que não queria passar por isso novamente e perguntou se havia como evitar. Pai Amaro disse para Paulo passar no terreiro pela manhã, e aí poderiam conversar melhor.

 

✨ O ritual violeta

Paulo deitou-se ao lado de Lili com a intenção firme de não dormir mais aquela noite. Mas o Deus do sono vem quando menos se espera, e novamente Paulo saiu do corpo. Desta vez, ele não flutuou, mas ficou sentado na cama olhando seu corpo físico ao lado do de Lili. Observou que o quarto de Lili estava levemente diferente; os móveis e objetos eram outros, o que o deixou intrigado. De repente, um ser apareceu no quarto e tentou arrastar o corpo de Lili para outro lugar. Paulo se agarrou como pôde às pernas de Lili e conseguiu segurá-la e protegê-la daquele estranho ser. O ser tinha uma aparência de outra época, usava vestes de lugares bem frios, uma manta marrom feita de pele de urso e um chapéu com chifres na cabeça.

 

Quando percebeu que não conseguiria levar Lili dali, o ser partiu para cima de Paulo, e começaram uma luta corporal. Paulo estava levando a pior e sendo enforcado pelo ser, quando acordou de supetão e viu Lili na sua frente com cara de espanto.

 

Lili disse que Paulo adormecera, mas logo começou a falar coisas sem sentido em uma espécie de estado de sonambulismo, o que fez Lili acordar. Ela ainda o observou por um tempo, porque tinha ouvido falar que nunca se deve acordar um sonâmbulo, pois ele pode morrer. Mas ela não aguentou o desespero de Paulo e o tirou de seu estado sonolento. Assim que acordou, Paulo pediu um copo de água para sua amada e depois lhe explicou sua segunda viagem astral. Enfim, os dois dormiram novamente, mas dessa vez Paulo não teve mais a viagem astral.

O dia amanheceu chuvoso, um frio seco do cerrado convidava o casal a vestir logo seus casacos. Paulo era mais friorento e logo pegou seu casaco mais quente, aquele que ele só usava nos meses de junho e julho, os mais frios do ano. Já Lili, após tomar um banho demorado com a água quente, vestiu uma blusinha comprida, mas não muito quente, pois não era tão friorenta como Paulo. Após um desjejum farto com direito a pão de queijo com geleia de damasco, biscoito com Nutella e um café bem forte, tudo preparado com esmero por Lili, o casal se dirigiu para o terreiro de Pai Amaro. O terreiro de Pai Amaro ficava numa região mais afastada da cidade de Brasília, numa cidade satélite, como são chamados os bairros que ficam ao redor do Plano Piloto. Em Sobradinho, a cidade satélite, Pai Amaro construiu um templo de louvor ao Pai Maior. Seu terreiro era bastante conhecido, e muitos iam ali a busca de alento ou respostas para as questões da vida, principalmente relacionadas a entes queridos que já houvessem partido para o plano superior.

Assim que chegaram ao terreiro, tocaram a campainha, e uma jovem toda de branco, com um turbante também branco na cabeça, os recebeu com um largo sorriso. Era Aninha a filha mais velha de Pai Amaro, que logo os convidou para entrar e os levou à presença do Pai de Santo. Pai Amaro estava no momento cuidando de sua horta, onde plantava um pouco de tudo.

Havia vários tipos de hortaliças e ervas, como manjericão, alecrim, boldo, alface, cenoura, tomate, rúcula, louro e rabanete.

As frutas também se faziam presentes, com pés de banana, goiaba, abacate, laranja e um imenso pé de limão, que lhe proporcionava limões o ano inteiro. Assim que avistou o casal amigo, o Pai de Santo parou o que estava fazendo e foi em direção a eles com os braços abertos para um grande abraço. Lili se sentia muito bem naquele ambiente e, desde o começo do relacionamento, fez questão de trazer Paulo e apresentá-lo a todos. Paulo, assim como Lili, tinha ficado bem próximo da família da casa.

 

O silêncio dos sonhos

Após os efusivos cumprimentos, Pai Amaro convidou o jovem casal para se sentar numa mesa ao ar livre, próximo ao pé de limão. Com seu modo paternal, Pai Amaro direcionou sua atenção a Paulo e disse: “Paulo, você não precisa ficar com medo. Isso que você tem é um tipo de mediunidade, e você, se quiser, pode trabalhar com ela e ajudar a força maior a melhorar um pouco o ambiente em que vivemos. Somos todos agentes de Deus aqui na Terra, e o que fazemos em prol do próximo, sem o intuito de recompensa, sempre é visto com bons olhos no outro plano. A mediunidade voltada para sonhos lúcidos se engloba nisso também. Através dela, você pode ajudar os socorristas do outro plano com a doação de energia carnal para ajudar em acidentes ou desastres extremos. Se você me permitir, posso orientá-lo e instruí-lo de forma que essa mediunidade seja plena e de boa missão.”

 

Paulo ouviu Pai Amaro com muita atenção, mas ao fim do discurso, disse: “Meu queridíssimo Pai, eu entendi o que o senhor com tanta maestria explicou, mas sinceramente não quero seguir esse caminho. A sensação que tive com essa experiência foi a pior possível; para mim, já estava morto. E ainda teve mais. Tive uma segunda experiência ontem, pior ainda, onde tive uma luta corporal com um ser de aparência demoníaca. Ele tentou raptar a Lili e depois tentou me enforcar. Com muito custo, Lili conseguiu me acordar e me salvar desse pesadelo. Por isso, meu pai, peço humildemente ao senhor que, se houver alguma forma de eliminar esses sonhos lúcidos de minha vida, que o senhor o faça, para que eu possa me sentir em paz comigo novamente.”

 

Pai Amaro, neste momento, ainda olhou para Lili, na esperança de alguma concordância com sua fala, mas com o silêncio mórbido de sua pupila, percebeu que estava sozinho em sua querela. “Pois bem,” disse ele, “há uma forma de trabalharmos para eliminar essa mediunidade em você, mas saiba que isso pode prejudicar seus sonhos inconscientes também, pois pode fazer você nunca mais se lembrar de sonho algum. É isso o que você realmente deseja?” “Sim, Pai Amaro, é o que mais quero no momento em minha vida,” disse Paulo. Pai Amaro chamou Aninha e pediu para ela preparar a sala de mediunidade para que, em meia hora, tudo estivesse pronto a contento. Após o período acordado, Aninha veio ao encontro dos três e, olhando diretamente para Pai Amaro, disse que o espaço já estava pronto. O Pai de Santo assentiu com a cabeça e convidou somente Paulo para se dirigir com ele ao ambiente. Aninha sentou ao lado de Lili e logo puxou uma conversa sobre as ações solidárias que o centro estava realizando naquele mês. O centro de Pai Amaro era prodigioso na ajuda a pessoas carentes.

 

Eles eram responsáveis por levar alimentos para pelo menos quarenta famílias carentes da região. E era sobre isso que Aninha conversava com Lili.

Assim que chegou à sala, Paulo teve que tirar os sapatos e os depositou numa sapateira que ficava do lado de fora do ambiente. O lugar tinha duas caixas de som penduradas no teto, onde uma música ambiente bem calma trazia um relaxamento instantâneo para quem se adentrava ali. O espaço estava todo tomado por uma cor violeta, e uma cama branca ao centro convidava Paulo para um pequeno repouso. Havia também um sofá ao lado da cama, destinado ao Pai de Santo.

 

Numa mesa ao fundo repousava uma garrafa com água fresca e dois copos ao lado. Pai Amaro pediu para Paulo fechar os olhos e se concentrar em tudo que ele diria. Primeiro, fez uma oração de Pai Nosso. Depois, começou pedindo à força maior que intercedesse no pedido do irmão que ali estava deitado. Pai Amaro falava pausadamente e com muita clareza, e após um curto período, o Pai de Santo começou a tremer. Sentiu que seu corpo já não lhe pertencia; alguém o havia substituído.

E então aconteceu…
“Meu filho Paulo, eu te acompanho em sua vida aqui na Terra. Eu sou seu guia; não se assuste. Eu só quero o seu bem. Percebo a sua agonia com a mediunidade de sonhos lúcidos que veio para você como missão sublime para a sua evolução.

 

Gostaria muito que você trilhasse esse caminho de redenção, mas entendo que o seu livre-arbítrio se faz maior que qualquer vontade minha. Mas lhe digo que não vou tirar essa mediunidade de você, até porque o único que poderia fazer isso é o nosso Pai maior. Mas vou atender de alguma forma o seu desejo. A partir de hoje, os seus sonhos lúcidos estarão estacionados, até o dia que você se sinta preparado novamente para tal missão. Sempre que você for dormir, beba um copo com água e açúcar, faça uma oração, e farei o seu espírito dormir ao lado do seu corpo físico, sem necessidade de sair por aí livre como és. Saiba que, a partir de hoje, dificilmente se lembrarás de seus sonhos e que um sentimento de vazio ocupará a sua mente e o seu coração. Eu me despeço lhe desejando que recobrasse a sua responsabilidade e que procure se aproximar de Deus e de Jesus, ajudando sempre os necessitados.”

Pai Amaro voltou ao seu eu, pegou a garrafa com água fluidificada que havia ali e ofereceu para Paulo, que a sorveu num gole só, pois estava com muita sede. Paulo então perguntou a Pai Amaro se o experimento tinha dado certo, e ele respondeu dizendo que não tinha essa resposta ainda, que saberíamos nos próximos dias através das noites dormidas do marido de Lili.

 

Após o encontro com seu guia espiritual, Paulo foi ter com Lili, que logo perguntou se o experimento tinha dado certo também, pois estava morrendo de curiosidade. Pai Amaro tomou a palavra e disse para Lili que só com o tempo teriam uma resposta definitiva, mas que o trabalho tinha sido feito de forma proveitosa. Paulo e Lili se despediram com abraços fraternais de Pai Amaro e Aninha e retornaram para seus lares.

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