Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e também apontam aumento de forma generalizada nas maiores regiões do país, com o Centro-Oeste concentrando o maior percentual (42,0%).
Para esclarecer dúvidas acerca do uso de cigarro eletrônico, entrevistamos o médico pneumologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/HU Brasil), Ricardo Martins.
O que é o cigarro eletrônico?
O cigarro eletrônico, vape ou e-cigarette é um dispositivo que aquece um líquido com nicotina; solventes, como propilenoglicol e glicerina vegetal; aromatizantes; e metais pesados; produzindo um aerossol tóxico que é inalado. No Brasil, a venda, importação e propaganda são proibidas desde 2009, e a Anvisa reafirmou essa proibição em 2024 após avaliar riscos à saúde.
De quais formas as substâncias liberadas pelo cigarro eletrônico afetam o organismo?
De várias formas. Entre elas está a grave dependência à nicotina, já que os cigarros eletrônicos ofertam a nicotina em concentrações muito altas, inclusive na forma de sais de nicotina, que aumentam o poder viciante. Também acontecem os danos respiratórios. O aerossol contém substâncias cancerígenas e metais como níquel, estanho e chumbo. Em alguns casos, a exposição equivale a mais de 20 maços de cigarro comuns. Além disso, há os riscos cardiovasculares, pois a nicotina aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, e favorece inflamação e aterosclerose, elevando riscos de infarto e AVC.
Quais são os riscos para fumantes passivos?
Os mesmos dos que ficam em contato com fumantes de cigarros comuns, porém, com maiores chances de apresentarem enfermidades, tais como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cancerígenas e doenças cardiovasculares.
Algumas pessoas defendem que o cigarro eletrônico é uma opção mais segura para fumantes e que se trata apenas de um vapor saborizado. Essas afirmações são verídicas?
Não. Cigarros eletrônicos não são inofensivos. A carga total de nicotina é equivalente a dezenas de cigarros tradicionais, o que aumenta a dependência e o risco de contrair doenças graves. Um cigarro comum contém cerca de 1 a 2 mg de nicotina absorvida e pode chegar a 60 mg/ml em alguns produtos comercializados em outros países.
Entre o cigarro, o vape e o narguilé há uma opção menos prejudicial para a saúde?
Não. Todos esses produtos são modelos que a indústria do cigarro utiliza para viciar o consumidor na nicotina, dando uma nova roupagem ao mesmo produto. Todos são extremamente danosos à saúde.
Mesmo sendo proibido no Brasil, a experimentação e o uso do cigarro eletrônico estão crescendo entre os adolescentes. Quais fatores contribuem para popularizar o uso de vape entre jovens brasileiros?
São vários os fatores, dentre os quais cito a aparência moderna e sabores atraentes; a falta de informação sobre riscos; a influência social e o marketing informal; e a falsa percepção de que é “menos prejudicial”, o que não é verdade, segundo estudos brasileiros. O uso do produto cresce rapidamente entre adolescentes. No DF, estudos do IBGE mostram que mais de 43% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram.
Quais são os prejuízos que o cigarro eletrônico pode causar para a saúde, tanto respiratórios quanto de forma geral?
No caso específico do cigarro eletrônico surge uma nova doença que recebeu o nome de EVALI, sigla em inglês para designar uma doença respiratória oriunda do consumo desse produto desse produto. O cigarro eletrônico possui um recipiente para inserção de um refil de nicotina e outros produtos, e de um dispositivo, em geral, alimentado por uma bateria, para aquecer e vaporizar esses produtos. A composição do cigarro eletrônico é variável, e é comum encontrar nicotina, água e aromatizantes e solventes, como a glicerina e propilenoglicol. A temperatura de vaporização pode atingir até 350°C. Entre os compostos gerados por essa reação estão produtos cancerígenos, como o formaldeído. Em 2019, foram registrados casos de lesões pulmonares causadas pelo uso de cigarros eletrônicos. Desde então, foram registrados 2.558 casos, muitos com lesões que geram a necessidade de internação, sendo que alguns desses foram a óbito.
Quais os riscos do uso desses cigarros eletrônicos e dos narguilés por adolescentes?
A curto prazo, a doença respiratória aguda citada acima. A médio e longo prazos, doenças crônicas graves, especialmente respiratórias e cardiovasculares.
Esses dispositivos causam vício? Se sim, como tratar?
Sim, a dependência de nicotina, uma das mais difíceis de se tratar. Uma vez dependente, o paciente deve ser conduzido para uma modalidade de tratamento que envolve uso de técnicas psicoterápicas associado a adesivo de nicotina ou medicamentos que diminuam a dependência dessa droga. É importante frisar que o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe desse tratamento e que é uma inverdade informar que esses produtos tiram a pessoa da dependência do cigarro. Ao contrário, estudos têm demonstrado que há um aumento do consumo de cigarros por parte de crianças e adolescentes com a introdução desses dispositivos no mercado.
Sobre a HU Brasil
O HUB-UnB faz parte da HU Brasil desde janeiro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
