Brasília, abril de 2026 – Em 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu o dia 11 de abril como o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Parkinson. Embora o tremor seja o sintoma mais conhecido da doença, o diagnóstico precoce e a eficácia dos tratamentos dependem da identificação de sinais discretos que surgem anos antes das alterações motoras. O ano de 2026 marca a consolidação de novas terapias farmacológicas que prometem auxiliar na autonomia e na estabilidade motora de pacientes que já não respondiam bem aos métodos tradicionais.
A doença de Parkinson é a segunda enfermidade neurodegenerativa mais comum no mundo, depois do Alzheimer, e afeta cerca de 10 milhões de pessoas globalmente. No Brasil, a estimativa ultrapassa a marca de 200 mil casos, com uma prevalência que atinge aproximadamente 1% da população acima dos 60 anos. O país caminha para ser um dos principais em quantidade de pessoas com a condição, em decorrência do rápido envelhecimento populacional.
Sintomas disfarçados
O diagnóstico da doença de Parkinson costuma ser tardio porque ainda depende essencialmente de sinais motores clássicos, que se manifestam apenas quando o paciente já perdeu entre 60% e 80% dos neurônios dopaminérgicos. No entanto, sintomas não motores, como depressão, ansiedade e constipação, podem preceder o diagnóstico em anos, como explica a Dra. Isabel Oliveira Araujo Moraes, neurologista do Hospital Santa Lúcia (HSL).
“O sinal cardinal é a bradicinesia, que é a lentidão generalizada dos movimentos. O tremor de repouso não está presente em todos os pacientes. Além disso, observamos rigidez muscular e instabilidade postural”, alerta a especialista, que também é membro da International Parkinson and Movement Disorder Society.
“Frequentemente, os primeiros sinais são sutis, como redução do balanço de um dos braços ao caminhar, diminuição da expressão facial (hipomimia), micrografia e lentidão em tarefas finas, além de sintomas não motores, como constipação, fadiga e alterações do humor”, explica Dra. Isabel.
Entre os marcadores mais específicos estão a redução do olfato (hiposmia) e o transtorno comportamental do sono REM, quando a pessoa “encena” os sonhos fisicamente. Segundo a neurologista, esses sinais podem surgir anos antes dos sintomas motores clássicos, refletindo o envolvimento precoce de estruturas não dopaminérgicas. “O distúrbio do sono REM, em particular, tem alta especificidade e está associado a maior risco de evolução para doenças neurodegenerativas do chamado grupo das sinucleinopatias, que a doença de Parkinson faz parte”, detalha a médica.
Inovações terapêuticas
Para os pacientes em estágios avançados, que enfrentam as chamadas “flutuações motoras”, como são chamadas as variações de mobilidade entre as doses de comprimidos, o cenário mudou com a aprovação do Produodopa pela Anvisa em 2025. Trata-se de uma formulação de fóslevodopa e fóscarbidopa administrada via infusão subcutânea contínua, por meio de uma bomba, 24 horas por dia.
A Dra. Isabel Oliveira explica que a tecnologia permite uma manutenção mais estável dos níveis plasmáticos do fármaco. Isso reduz a dependência de múltiplas doses orais de levodopa ao longo do dia e melhora significativamente o controle motor em pacientes com perfil de indicação de tratamento avançado. Outra inovação é o Tavapadon, que surge como opção promissora com menos efeitos colaterais.
“O Tavapadon é um agonista dopaminérgico seletivo com perfil farmacológico diferenciado, oferecendo potencial benefício tanto em fases iniciais quanto intermediárias da doença”, acrescenta a médica. O medicamento pode ser indicado como terapia única em estágios iniciais ou como auxiliar em pacientes com resposta inferior ao esperado à levodopa, especialmente quando se busca reduzir flutuações motoras.
Mesmo com o avanço farmacológico, a estimulação cerebral profunda (DBS) mantém seu papel central para casos de flutuações refratárias, e a integração com novas tecnologias digitais, como dispositivos vestíveis e monitoramento remoto, tende a permitir abordagens mais personalizadas.
Envelhecimento da população brasileira
O aumento dos casos no Brasil está diretamente ligado à inversão da pirâmide demográfica. O país está envelhecendo de forma acelerada, passando de uma população predominantemente jovem para uma idosa sem o devido preparo estrutural. O Dr. Thiago Nogueira, geriatra do programa Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia (HSL), ressalta que muitos sinais precoces são erroneamente atribuídos à idade avançada. “O paciente interpreta que são alterações próprias da idade e não dá a verdadeira importância aos sintomas”, alerta.
A presença de múltiplas comorbidades pode mascarar o diagnóstico, assim como a depressão e a ansiedade não tratadas podem acelerar o declínio funcional. Por isso, a importância de programas multidisciplinares, como o Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia, voltado para o atendimento integral de pacientes idosos.
“É de fundamental importância uma equipe multidisciplinar acompanhando estes pacientes. Com isso, ocorre redução de complicações como broncoaspiração, queda e consequentemente redução de internação hospitalar”, ressalta o médico. “Por se tratar de um programa multidisciplinar, ele permite um cuidado humanizado, eficiente e centrado no paciente, evitando internações e detectando alterações e realizando ajustes precoces no plano terapêutico.”
Para as famílias, o geriatra orienta a manutenção de rotinas rígidas, uso correto de medicamentos e adaptação do ambiente doméstico para evitar acidentes. “O foco central do tratamento é garantir que, mesmo com o diagnóstico, o paciente mantenha sua funcionalidade e autonomia pelo maior tempo possível”, afirma Dr. Thiago Nogueira.

