A Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) esclarece e orienta a respeito do lipedema, condição vascular de caráter crônico, associada a alterações hormonais, atingindo majoritariamente o público feminino. A doença recentemente ganhou destaque nas mídias sociais devido a apresentadora Rafa Brites, de 39 anos, compartilhar em suas páginas o diagnóstico da patologia.
O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo que acomete predominantemente mulheres. Caracteriza-se pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente em membros inferiores, preservando os pés, e pode também atingir os braços, poupando as mãos. Dor à palpação, sensação de peso, edema persistente e hematomas frequentes são sinais típicos.
“O lipedema é uma circunstância física complexa, com base inflamatória, hormonal, metabólica e também com forte componente genético. Na maioria das vezes, não se trata de uma condição puramente estética, mas de uma doença que exige avaliação médica especializada.”, afirma o Dr. Antônio Carlos de Souza, também diretor de publicações da SBACV.
Informação com responsabilidade
A SBACV destaca que o principal ganho da repercussão pública é estimular as mulheres com sintomas compatíveis a buscar avaliação médica especializada. O médico explica que a postagem lança luz sobre o assunto, principalmente pela apresentadora afirmar não ter utilizado roupas apertadas e não apresentar sobrepeso, o que poderia ser uma condicionante para a manifestação da doença.
O diretor da SBACV saúda o fato da jornalista ter procurado o médico no final do ano passado, após ter sentido dores e o surgimento de hematomas nas pernas e orienta a importância de ações preventivas e o acompanhamento de informação qualificada. Estima-se que entre 10% e 18% das mulheres apresentem características compatíveis com a condição, embora muitos casos ainda sejam confundidos com obesidade, retenção hídrica ou sedentarismo.
Entenda o lipedema
O lipedema frequentemente apresenta agregação familiar, sugerindo predisposição genética. Além disso, alterações na expressão gênica do tecido adiposo acometido, com desequilíbrios envolvendo receptores hormonais, inflamação e fibroses. Segundo o diretor, fatores epigenéticos — isto é, modificações na expressão gênica influenciadas por ambiente, estado inflamatório, alimentação e variações hormonais — também desempenham papel relevante.
“O tecido adiposo do lipedema apresenta comportamento biológico distinto. Há alterações na sinalização hormonal, no padrão inflamatório e na fibrose que não são explicadas apenas por excesso calórico. Estamos diante de uma doença com bases moleculares próprias”.
Dados do Cadastro Internacional de Doenças indicam que cerca de 10 a 18% das mulheres no mundo apresentam o diagnóstico de lipedema. A doença é progressiva e apesar de não ter cura, tem tratamento.
Tratamento do lipedema
O tratamento do lipedema passa por uma combinação de fatores. A dieta balanceada junto à prática regular de exercícios físicos são elementos fundamentais para conter o avanço da condição. Além disso, o uso de meias de compressão e lipoaspiração pode ser indicado em alguns casos.
“O lipedema impacta com dor, a mobilidade, comprometimento da autoestima e qualidade de vida. Por isso, o tratamento precisa ser coordenado, com acompanhamento clínico regular e integração entre médicos e outros profissionais envolvidos no cuidado. Não existe solução única ou intervenção isolada que resolva a doença”, afirma o diretor da SBACV.
A condução adequada envolve controle metabólico, estratégias anti-inflamatórias, reabilitação funcional, suporte psicológico quando necessário e monitoramento contínuo da evolução clínica.
Cautela com promessas e intervenções precoces
Com o aumento da visibilidade do tema, cresce também a oferta de tratamentos sem comprovação científica. A SBACV alerta para a importância de evitar protocolos divulgados como curativos, suplementos não validados e terapias sem respaldo técnico. “É fundamental fugir de soluções rápidas. O tratamento deve ser estruturado, progressivo e baseado em evidências. A cirurgia, embora possa ter indicação em casos selecionados, geralmente não deve ser considerada como primeira opção de tratamento”, ressalta o especialista.
A lipoaspiração específica para lipedema pode ser útil em situações com comprometimento funcional relevante, mas deve ocorrer após tratamento clínico adequado e avaliação criteriosa. “É preciso responsabilidade científica. Até o momento, não há medicação aprovada especificamente para lipedema. A incorporação de novas terapias deve ocorrer dentro de critérios éticos e baseados em evidência robusta”, pontua o Dr. Antônio Carlos.

